Entrevista ao jornal "A Verdade", edição de Dezembro-2002/Janeiro-2003.
| "A queda das duas torres gêmeas mostrou que os Estados Unidos não são tão fortes assim, como aparentavam." |
Vital Farias: É interessante. Os Estados Unidos mataram um país inteiro e não encontraram um homem (Bin Laden) a quem procuravam. Tudo que você citou faz é apressar a chegada do socialismo. Ninguém fica satisfeito se não recebe os frutos do seu trabalho. Todos os países querem viver em paz. Essa política de intimidação que os EUA impõem ao mundo causa transtornos e é lamentável, mas ao mesmo tempo mostra sua fraqueza e deixa claro para todos quem impede os povos de viver em paz. Não assinaram o Tratado de Kyoto, não renovaram o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares que tinham com a antiga União Soviética. Estão gerando muita insatisfação, não apenas entre os países do Terceiro Mundo, mas na própria Europa. É perigoso demais um país arvorar-se a ser o xerife do mundo inteiro. Não há coisa pior do que ser um gigante no meio de anões. Sua cabeça fica descoberta e se torna um alvo fácil, que pode ser atingido de longe.
Voltando ao Brasil: quais são realmente as perspectivas de mudança com o Governo Lula? Vital Farias: Acredito que há uma possibilidade muito grande de o Brasil se impor diante dos EUA, por causa de nossa importancia estratégica. Somos um continente e não é possível ficarmos obedecendo ao rei a vida inteira. Acredito que Lula tem o respaldo efervescente da população. O não que foi dado a esse governo que está aí, foi em voz alta, em caixa alta. Então, Lula tem força para sentar com o governo dos EUA e negociar, só assinando a ALCA em condições favoráveis ao povo brasileiro.
| "É urgente a democratização dos meios de comunicação no Brasil." |
Mas para isso, para ter algum ganho na qualidade de vida, o povo vai ter de estar mobilizado, o que significa estar muito consciente, pois os meios de comunicação estão aí para desarticular, desmobilizar, uma vez que não estão a favor do povo brasileiro e sim dos grandes interesses internacionais.
Como você avalia o papel dos meios de comunicação nas últimas eleições e, em geral, sua influência na linha de governo a ser adotada?
Vital Farias: O jornalismo brasileiro não diz a verdade. Os meios de comunicação só bajulam os poderosos. (...) É preciso avaliar como os meios de comunicação têm enriquecido seus donos e emprobrecido a população. Os meios de comunicação são uma concessão do Estado. Os governos, entretanto, têm feito as concessões, mas nada exigem dos beneficiários. Não determinam, por exemplo, que eles mantenham programas de verdadeira educação e informação do povo. Tanto a TV Globo, como o SBT, a Bandeirantes, a Record, todas elas negam a nossa cultura, a nossa nacionalidade, fazem um jornalismo de péssima qualidade e não traduzem os anseios da população brasileira. Nada de educativo é feito para as crianças, vítimas dessas "xuxas" da vida, de desenhos animados americanos e japoneses violentíssimos, coisas que vêm deturpando a infância. Há uma resposta muito tímida, de um canal de televisão estatal, com programas educativos, mas é uma TV sem potencial para atingir todo o País e fazer frente às redes privadas.
Poderia citar alguns nomes que poderiam se articular para reivindicar uma rede estatal de TV e assumir a sua condução?
Vital Farias: São tantas pessoas capazes que fica até difícil citar alguns, mas vou fazê-lo, sem detrimento de muitas outras. Não conversei com elas sobre o assunto, mas acredito que são pessoas que querem ver o Brasil como nação soberana: Chico Buarque de Hollanda, Juca Chaves, Djavan, José Ramos Tinhorão, que é um grande estudioso da música e da arte brasileira, o mestre Ariano Suassuna, Antônio Carlos Nóbrega, Rolando Boldrin, Leci Brandão, Zezé Mota, Aldir Blanc, João Bosco, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Marcos Vinícius de Andrade. O Brasil tem valores demais, pessoas capazes e dignas. In memoriam, pessoas que fazem falta num momento desses, como Josué de Castro, João Cabral de Mello Neto e Darcy Ribeiro.
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